A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui.

O. E tem o filme também. Ouvi rumores de que um filme do Guia do Mochileiro vem sendo especulado há décadas.

D.A. Bem, sim. Embora a coisa tenha começado a esquentar, houve duas fontes de rumores anteriores. Uma foi quando, há cerca de quinze anos, vendi os direitos para Ivan Reitman, que não era tão conhecido na época. A coisa realmente não funcionou, porque uma vez que havíamos começado o trabalho, Ivan e eu não nos encontrávamos pessoalmente. Na verdade, o que aconteceu é que ele não havia lido o livro antes de comprá-los. Ele tinha meramente visto o número de vendas. Acredito realmente que não era a praia dele, então ele quis fazer algo bem diferente. Por fim, concordamos em discordar e seguimos nossos respectivos caminhos, e nessa época os direitos tinham passado dele para a Columbia, e ele foi fazer um filme chamado Os Caça-Fantasmas. Dá para imaginar como fiquei irritado com tudo isso. O filme ficou parado lá nas mãos da Columbia por muitos anos. Acredito que Ivan Reitman na época pediu para alguém escrever um roteiro baseado nele que é, na minha opinião, o pior roteiro que já li. Infelizmente, tem meu nome nele e dos outros escritores, no entanto não contribui com uma vírgula se quer. Recentemente descobri que aquele roteiro está repousando na cidade dos roteiros, ou seja lá onde for, há muito tempo e que todos acreditam que eu o escrevi e que sou, conseqüentemente, um terrível roteirista. O que é bem angustiante para mim. Então, alguns anos atrás, fui apresentado a alguém que se tornaria um grande amigo meu, Michael Nesmith, que tem feito um monte de coisas diferentes em sua carreira. Além de ser um produtor de filmes, ele fora primeiramente um The Monkees, o que é meio estranho quando você chega a conhecê-lo, porque ele é um camarada tão sério, profundo, quieto, mas com um toque de prazer meio endiabrado. Então a proposta dele era que fizéssemos uma parceria. Ele seria o produtor e eu faria os roteiros e assim por diante. Nos divertimos muito trabalhando nisso por um bom tempo, mas acredito que Hollywood naquele momento viu a coisa como algo velho. Eles já passaram por muita coisa. E basicamente, o que me disseram várias vezes era que essencialmente, “Ficção-científica com comédia não vai funcionar como um filme. E aqui está o porque não: Se pudesse funcionar, alguém já o teria feito”.

O. Essa lógica me parece meio furada.

D.A. Então, o ano passado, aconteceu que Homens de Preto foi lançado e, de repente, alguém já havia feito aquilo. E Homens de Preto é… Como posso dizer de forma delicada? Existem elementos nele que acho um pouco familiar, devo dizer. Sendo assim, do dia pra noite, um filme de ficção científica de comédia que ia muita na mesma linha que o Guia se tornou um dos filmes de maior sucesso já feito. Com isso a perspectiva das coisas mudou um pouco. De uma hora para outra as pessoas meio que o queriam. O projeto com o Michael… No final das contas, não conseguimos fazer a coisa decolar, então desfizemos a parceria, mas como bons amigos e que ainda somos. Eu apenas espero que haja outros projetos no futuro em que ele e eu possamos trabalhar juntos, porque gosto muito dele e nos damos muito bem juntos. Além disso, quando mais tempo eu conseguir passar em Santa Fé, melhor. Bem, agora o filme está com a Disney ou, para ser mais específico, com a Caravan, que é uma das maiores empresas de produção independente, mas que está meio atrelada a Disney. É bastante frustrante não tê-lo realizado nesses últimos quinze anos, no entanto me sinto extremamente apoiado pelo fato de que alguém pode fazer um filme muito, muito, muito melhor agora do que há quinze anos. Isso em termos técnicos, de como será a aparência e como funcionará. Obviamente a qualidade verdadeira do filme está no enredo, na atuação, direção e assim por diante, e estas habilidades não emergiram nem afundaram nesses últimos quinze anos. Mas pelo menos em uma área substancial, em como trabalhar a aparência, melhorou significativamente.

O. E Joy Roach [Austin Powers] o está dirigindo, certo?

D.A. Isso mesmo. Ele é um cara muito interessante. Tenho passado um bom tempo conversando com ele. O segredo da coisa toda, sob vários aspectos, foi que quando conheci Joy Roach me identifiquei muito com ele, e pensei: “Eis um cara muito inteligente e brilhante”. Ele não é apenas um cara brilhante e inteligente, mas vou tentar mensurar o quão brilhante e inteligente ele é: ele quer que eu trabalhe bem de perto no filme dele. O que é algo que sempre enobrece um escritor para um diretor. Na verdade, quando estava criando a série de rádio original, ninguém jamais imaginara fazer o que fiz, afinal de contas eu tinha acabado de escrevê-la, mas eu meio que me inseri em todo o processo de produção. O produtor/diretor ficou meio surpreso com isso, mas no final levou tudo numa boa. Então tive muito a ver com o modo como o programa se desenvolveu e é certamente isso que Jay quer que eu faça nesse filme. Então pude sentir, “Ótimo, eis alguém com quem posso fechar negócio”. Obviamente estou dizendo isso no início de um processo que vai durar dois anos, então quem sabe o que vai acontecer? Tudo o que posso dizer é que nesse exato momento as coisas estão caminhando da melhor forma possível. Sendo assim me sinto muito otimista e animado com tudo isso.

O. Já se passaram por volta de vinte anos desde o programa de rádio, certo?

D.A. Bem, é quase exatamente vinte anos. Completará vinte anos no próximo mês.

O. Qual o segredo da longevidade do Guia do Mochileiro das Galáxias?

D.A. Eu não sei. Tudo o que sei é que ralei muito, me preocupei muito com ele e acredito que tornei as coisas muito difíceis para mim ao fazê-lo. E se existisse uma maneira fácil de fazer alguma coisa, eu acharia um caminho muito mais complicado de fazê-lo. E eu respeito o fato de que a quantidade de pessoas que gostam do Guia não está relacionado com a quantidade de trabalho que depositei nele. Isto é uma coisa meio simplista de se dizer, mas é o melhor que tenho agora.

O. A ideia é que o filme aborde o primeiro livro?

D.A. Sim. É engraçado, pois venho pesquisando na web o que as pessoas têm dito. Já vi, “Ele vai inserir os cinco livros no filme”. As pessoas realmente não entendem a maneira como um livro se projeta em um filme. Alguém disse, e achei bastante preciso, que o melhor material de origem para um filme é um conto. O que significa efetivamente que sim, vai ser o primeiro livro. Tendo dito isso, sempre que me sento e faço uma outra versão do Guia, ela é extremamente contraditória a qualquer versão anterior. O melhor que posso dizer sobre o filme é que será especificamente contraditório ao primeiro livro.

O. Qual a versão do Guia que te deixa mais satisfeito?

D.A. Com certeza não é a da TV. Dependendo do meu humor, vou oscilar entre a do rádio ou a do livro, que são as duas outras versões que me sobram, então tem que ser uma delas, não é? Sinto algo diferente por cada uma delas. Por um lado, a série de rádio foi onde tudo começou, onde a coisa cresceu, onde a semente brotou. Além disso, é onde senti que eu e as outras pessoas trabalhando no Guia – o produtor, o engenheiro de som e assim por diante e, é claro, os atores – havíamos criado algo que realmente parecia inovador na época. Ou melhor, deu a impressão que éramos totalmente loucos na época. Lembro-me de sentar no estúdio subterrâneo ensaiando o som de uma baleia se espatifando no chão a quase quinhentos quilômetros por hora por horas a fio, apenas tentando achar maneiras de ajustar o som. Depois de horas debruçado nisso, dia após dia, você realmente começa a duvidar da sua sanidade. E claro, não se tem a mínima ideia se alguém vai ouvir isso. Mas sabe de uma coisa, havia uma sensação real de que ninguém jamais tinha feito algo parecido antes, e isso era ótimo, porém há uma grande custo que vem junto com isso. Por outro lado, o encanto dos livros para mim é que aquilo ali sou eu. O grande apelo de um livro para qualquer escritor é que aquilo é simplesmente ele. É isso aí. Não há mais ninguém envolvido. Isso não é bem verdade, claro, porque a coisa se desenvolveu a partir de uma série de rádio em primeiro lugar, e tem o “feeling” de todas as pessoas que já contribuíram, de alguma maneira ou de outra, com o espetáculo de rádio de onde a coisa toda surgiu. Mas, no entanto, há um sentimento do tipo “este é um trabalho totalmente meu” em um livro e aprecio a maneira como a leitura flui. Sinto que a coisa flui com leveza, como se tivesse sido fácil escreve-lo, mas eu sei o quanto foi difícil de alcançá-lo.

O. Você às vezes se cansa do Guia do Mochileiro das Galáxias?

D.A. Houve uma época em que fiquei totalmente enjoado dele, e não queria nunca mais ouvir nada a respeito dele novamente, e chegava perto de gritar com quem viesse comentar sobre ele comigo. Mas desde então, eu viajei um pouco e fiz outras coisas. Escrevi os livros do Dirk Gently. Das coisas que fiz, a que mais gosto aconteceu há dez anos: viajei pelo mundo com um zoólogo amigo meu, e procurei por várias espécies de animais raros e em extinção, e escrevi um livro a respeito disso chamado Last Chance to See, que é o meu preferido. O Guia agora é algo do passado do qual gosto muito; foi ótimo, sensacional, e ele foi muito bom para mim. Tive uma conversa há pouco tempo com Pete Townshend do The Who, e acho que naquela hora eu disse, “Oh Deus, espero não ser lembrado apenas como a pessoa que escreveu O Guia do Mochileiro das Galáxias”. E ele meio que me reprimiu por isso. Disse, “Olhe, tenho a mesma sensação por Tommy, e por muito tempo pensei assim. A questão é: quando se tem algo do tipo na sua história, ela abre um monte de portas. Lhe permite fazer um monte de outras coisas. As pessoas se lembram disso. É algo de que se deve ser grato”. E achei aquilo bastante sensato.

O. Você deixou o Dirk Gently de lado?

D.A. Comecei a escrever outro livro do Dirk Gently e me perdi. Por alguma razão não conseguia fazê-lo fluir, então tive que deixá-lo de lado. Não sabia o que fazer com aquilo. Dei uma olhada no material novamente depois de mais ou menos um ano e de repente concluí, “Na verdade, a razão é que as ideias e os personagens não combinam. Tentei seguir uma linha de ideias incorretas, e essas ideias se encaixariam muito melhor em um livro do Guia, mas eu não quero escrever outro livro do Guia por enquanto”. Então eu meio que as coloquei de lado. E talvez um dia eu escreva um outro livro do Guia, porque há uma quantidade muito grande de material só esperando para adentrá-lo. Mas voltando ao Dirk Gently, eu meio que deixei o Dirk de lado, sério mesmo. Houve uma montagem de um aluno da Oxford sobre o Dirk Gently, Holistic Detective Agency há dois ou três meses, então fui lá para assisti-la. E é um enredo extremamente complicado… Parte da complexidade está lá para disfarçar o fato de que o enredo não funciona bem… Foi divertido assisti-lo no palco, pois repentinamente comecei a pensar sobre isso novamente, e pensar, “Bem, eles fizeram isso bem, mas o que deveriam ter feito era isso, e deveriam ter feito aquilo”. Sabe, começa a surgir um monte de ideia na sua mente. O que também foi interessante para mim foi que enquanto eu estava sentado lá sendo bem crítico em relação à montagem, fiquei embasbacado por ver o quanto o público estava gostando. Foi uma situação bastante peculiar. De repente pensei, “Adoraria ver isso acontecer em um filme, porque agora posso ver, tendo pensado a respeito disso recentemente dentro desse contexto, que tipo de filme ele se tornaria, e seria grandioso”. Então talvez, uma vez que o filme do Guia tenha subido aos palcos onde eu possa apontar a minha atenção para outras coisas também, isto é a próxima coisa que gostaria de fazer. E com este filme a caminho, espero que mais portas se abram no que diz respeito a fazer filmes. Adoraria fazer filmes, mas eis um homem dizendo isso inocentemente que nunca fez um.

Entrevista conduzida por
Keith Phipps, 1998.

Written By

Carlos Eduardo

Meu nome é Carlos Eduardo e já completei 33 primaveras. Meu sonho é ter um robô de estimação e viajar o mundo em um balão.