Esquire, Verão de 1991

nariz

Minha mãe tem um nariz comprido e meu pai um nariz largo, o meu é a combinação de ambos. É grande. A única pessoa que conheci com um nariz consideravelmente maior do que o meu foi um professor do ensino médio, que também tinha olhos minúsculos, era praticamente sem queixo e ridiculamente magro. Lembrava o cruzamento de um flamingo e um instrumento agrícola antiquado e andava meio sem firmeza quando batia um vento contrário. Ele também se escondia bastante.

Eu queria me esconder também. Quando garoto, fui caçoado sem piedade alguma a respeito do meu nariz por anos até que um dia, por acaso, avistei meu perfil em um par de espelhos paralelos e tive que admitir que ele era, na verdade, bem engraçado. A partir daquele momento, as pessoas pararam de me importunar em relação ao meu nariz, e ao invés começaram a me provocar sem dó alguma por conta de eu dizer coisas como “na verdade”, algo que nunca deu uma trégua sequer até os dias de hoje.

Uma das características mais curiosas sobre o meu nariz é que ele não permite a entrada de ar algum. Algo difícil de entender ou até mesmo acreditar. Este problema nos leva de volta há muito tempo quando eu era um garotinho morando na casa da minha avó. Minha avó era a representante local do RSPCA*, o que significava que a casa estava sempre cheia de cachorros e gatos seriamente machucados, e até mesmo os menos comuns como texugos, furões, ou pombos.

Alguns estavam feridos fisicamente, outros psicologicamente, mas o efeito que eles provocaram em mim foi danificar seriamente minha capacidade de concentração. Por causa do ar espesso de pele de animal e poeira, meu nariz ficava inflamado e escorrendo ininterruptamente, e a cada quinze segundo eu espirrava. Qualquer pensamento que eu não conseguisse explorar, desenvolver, ou chegar a alguma conclusão lógica dentro de quinze segundos seria então forçosamente expelido da minha cabeça, junto com grande quantidade de muco.

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Há aqueles que dizem que tendo a pensar e escrever em frases curtas, e se há alguma verdade nessa crítica, então foi quase certamente enquanto morava com minha avó que o hábito se desenvolvera.

Eu escapei da casa da minha avó indo para o internato, onde pela primeira vez na minha vida consegui respirar. Essa abençoada liberdade recém descoberta perdurou por boas duas semanas, até que tive de aprender a jogar rugby. Por volta dos primeiros cinco minutos da primeira partida que joguei, consegui quebrar o nariz no meu próprio joelho, o que embora tenha sido um feito claramente extraordinário, teve o mesmo efeito em mim que aquelas sublevações geológicas tiveram em civilizações inteiras nos romances de Rider Haggard – isto efetivamente me isolou do mundo lá fora para sempre.

Vários especialistas em otorrinolaringologia, em épocas diferentes, embarcaram em grandes expedições espeleológicas em minhas vias nasais, mas a maioria voltou perplexa. Aqueles que não retornaram perplexos, simplesmente não retornaram, e são, conseqüentemente, agora parte do problema ao invés da solução.

A única coisa que me deixou tentado a provar cocaína era o horrendo aviso de que a coisa corroia o seu septo. Seu eu achasse que a cocaína poderia na verdade achar um caminho pelo meu septo, eu alegremente enfiaria baldes de cocaína no nariz e deixaria que ela corroesse o quanto quisesse. Fui dissuadido, entretanto, pelas observações de amigos que literalmente enfiaram cocaína aos baldes nas narinas e que têm capacidade de concentração ainda menores que as minhas.

Então, agora estou mais conformado com o fato de que meu nariz é decorativo ao invés de funcional. Como o Telescópio Espacial Hubble, ele representa uma incrível proeza da engenharia, mas não serve para nada, exceto talvez para causar algumas risadas fáceis.

N.T.: The Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals – Principal órgão do Reino Unido de proteção aos animais.
Written By

Carlos Eduardo

Meu nome é Carlos Eduardo e já completei 33 primaveras. Meu sonho é ter um robô de estimação e viajar o mundo em um balão.